Entrevista Carol Levy – Contação de História

 

 O ato de contar histórias para os bebês e as crianças ganhou espaço nos últimos tempos. Como podemos falar da contação de estórias como sendo uma ferramenta de trabalho para o desenvolvimento infantil?

O desenvolvimento infantil se dá através de diversos estímulos visuais, sensoriais, sonoros, artísticos, dentre tantos outros. Ao perceber as características, demandas e repertório que a própria criança oferece, podemos construir várias formas de educar através da brincadeira. A narrativa é uma das formas de estimular a criança em vários aspectos: aumento de vocabulário, estímulo à leitura, acesso à arte através das ilustrações dos livros, estímulo à imaginação através da história contada/narrada, troca de afeto, brincadeira, construção da moralidade, nossa! São muitas as possibilidades quando a gente se dispõe a contar uma história seja narrando ou lendo um livro. Obviamente são propostas diferentes, mas ambas devem ser feitas e possuem inúmeros pontos positivos.

 

Como você trabalha a intenção de desenvolvimento de habilidades socioemocionais na escolha das suas estórias?

A escolha da história é uma coisa muito pessoal. A primeira estória que devemos levar em consideração é a nossa. Através dela, das nossas experiências, das coisas que nos chama a atenção e toca o coração é que saberemos o que escolher para contar ao outro. Acredito que a escolha do repertório deva ser de extrema verdade e interesse por parte do narrador. É preciso me emocionar em primeiro lugar, só assim poderei emocionar o ouvinte partilhando o que senti ao ler/ouvir tudo aquilo. Tentarei ser mais clara: eu sou uma mulher com valores, experiências, crenças, cultura e conhecimento construído no decorrer da minha vida. A mistura disso tudo é o que determina a escolha das histórias que conto. Quando fui tocada pela história de Chapeuzinho Amarelo (Chico Buarque), aquilo aconteceu como uma punhalada no meu peito. A menina tinha medo de tudo. O medo era tanto que a paralisava. Ela construía os monstros e lobos no seu imaginário e eles se tornavam muito maiores do que eram. Ao finalmente se deparar com o seu maior medo, o do lobo, ela percebeu que ele, o lobo, não era tão grande quanto ela pensava. E depois disso ele foi ficando cada vez menor. Agora vamos pensar nas nossas vidas: q uantas e quantas vezes nós acabamos congelando diante de um desafio por achar que não daremos conta? Depois que decidimos dar um passo de cada vez, as coisas vão tomando forma e tamanho. Comumente um tamanho menor do que estava na nossa imaginação. Agora veja bem como uma história, de forma lúdica, leve e aparentemente despretensiosa, pode dar a mão à uma criança dizendo: vá, você consegue. Se o lobo chegar, passe por ele. Pode até machucar um pouquinho, mas quem sabe não será apenas um arranhão?

O adulto, ao contar determinada estória, permite que a criança inicie um processo de construção de sua identidade social e cultural. Você acha que a graduação prepara os professores para o uso dessa ferramenta tão genuína?

Infelizmente não. Não mesmo. Digo isso pois lido com professores, dou oficinas, workshops, aulas-show e muitos deles me falam da dificuldade, vergonha, insegurança ao escolher o repertório, dificuldade em segurar a atenção da criança, dentre tantos outros desafios.

 

Como seria a formação ideal de professores no que diz respeito ao uso eficaz da contação de estórias em sala de aula?

Não sei se posso falar na formação ideal, mas acredito que posso palpitar numa formação possível. É realmente urgente entender que os professores precisam de ressignificação e isso não serve apenas para a

arte da narrativa. O lúdico deve estar constantemente em sala de aula e, quando falo em lúdico, não me refiro a distribuir brincadeiras sem propósito e sentido em relação ao que precisa ser ensinado. Claro que a escola deve seguir uma programação mas é preciso observar o quê o grupo pede e precisa. Colocar todas as crianças em caixinhas oferecendo propostas sempre do mesmo jeito não me parece interessante nem inteligente. Entendo que ensinar e educar é o maior desafio da vida, mas perceber o retorno positivo também é uma das maiores alegrias.

Acredito que colocar os professores para brincar, vivenciar as experiências ditas infantis a fim de se colocarem no lugar da criança deve ser a primeira coisa a ser feita. Mostrar como seria mais interessante oferecer o conteúdo de forma não tradicional e blocada. Levar a arte constantemente para a sala de aula, aumentar o repertório artístico e consumir arte, entender que arte não é apenas o que vemos dentro dos museus, ler e contar histórias, brincar com os personagens, entender que, para conseguir tocar o coração de alguém com uma história, o grande segredo é fazer de tudo para transmitir a mesma emoção que a gente sentiu ao lê-la. Por isso que a escolha do repertóri o é algo tão pessoal.

 

Qual é a diferença entre ler e ouvir estórias?

Ao ler uma história é você que está no comando: toda a dinâmica da narrativa será assimilada pelo leitor. Um trecho pode ser pesado e difícil demais para uns, já para outros nem tanto. Há uma possibilidade maior de pausas, reflexões  e discussões sobre o que foi lido. Ao ouvir uma história, quem comanda é o narrador: é ele quem dá a dramaticidade no decorrer da história. Obviamente que o contador não deve quebrar a essência ou omitir fatos determinantes da obra, mas ele pode se demorar mais num trecho que, para ele, tenha importância artística. Vou exemplificar: imagine uma narrativa de um livro de imagens, sem texto algum. Imagina só a quantidad e de possibilidades narrativas que podemos criar? O narrador pode construir, junto aos  ouvintes ou não, uma infinidade de textos. Para concluir gostaria de lembrar que as pausas, reflexões e discussões aqui também são muito bem vindas. Adoro quando os ouvintes perguntam, comentam e participam da narrativa. Isso só aumenta a troca e enriquece a história.

 

Como contar estórias para crianças?

Primeiramente com muita entrega, prazer e interesse pelo que se está lendo. Depois de selecionar os livros que lhe são interessantes, você sempre deve levar os ouvintes em consideração: é a sua turma? Do que eles gostam de brincar? O que eles levam para sala de aula? Quais os assuntos de interesse deles? É seu filho? Como ele é? Qual a personalidade dele? O que ele gosta de fazer? É uma grande plateia? São adultos ou crianças? Existem uma média de idade? É um público variado? Aposte em mais de um tipo de história, tente contemplar todas as idades. E, para terminar, brinque, leia, conte e divirta-se!

 

 

Carol Levy é cantora e contadora de estórias, fez faculdade de Publicidade, Propaganda e é Locutora. Ela também faz locuções, jingles publicitários e várias vozes para personagens de desenhos animados. É pós-graduanda em Educação Infantil pelo SENAC SP.

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